Não vou falar de Luís de Camões, apesar de me ter inspirado num trecho de um poema seu para título deste texto (até porque nunca lhe achei muita piada, venham de lá os professores de Português atirarem-me pedras).
Mas vou sim falar de Tempos (diga-se antes, Eras), e de Manias.
Quem não as tem? Eu tenho muitas, e uma delas é meter as pessoas em tubos de ensaio (metaforicamente falando) e estudá-las. E depois escrever sobre isso. Vociferar, queixar-me, fazer julgamentos, uns mais certos, outros menos: tudo isso junto. É a minha mania. Mas pelo menos admito que a tenho, para a alegria de todos nós. Amén!
E nos Tempos que hoje correm, há com cada Mania...e que me afectam em particular, mais ainda que as minhas próprias, porque muitos não admitem que as têm, ao passo que eu até sou bastante fã da expressão "dar o braço a torcer".
Começou a nascer uma corrente no Ocidente (não sei bem quando, nem onde, mas julgo que tenha tido o grande empurrão na entrada do novo milénio) à qual eu pejorativamente chamo de "Shanti-Shanti". Não me perguntem o porquê nem a origem deste termo. Simplesmente soa-me sarcásticamente adequado àquilo de que eu vou falar.
(Não vou a retratar ninguém em particular, mas se servir a carapuça, serviu.)
O movimento "Shanti-Shanti" é este engraçado movimento de pessoas que se juntam para meditar, abraçar árvores, cair em buracos no meio da terra e ficar lá horas a contemplar minhocas, que benzem a comida antes de a devorarem, enquanto abanam as seus colares feitos de sementes de uma qualquer planta exótica com extra-poderes curativos. Pessoas que limpam o rabo com folhas de aipim e que acordam às 5h da manhã para contemplar o nascer do sol numa vénia solene à Mãe Natureza. Que não comem carne porque acham hedionda a ideia de matar um animal para se alimentarem e que nunca jamais tocam em alcool porque lhes tolda as ideias. Pessoas essas também que saem à rua para dar abraços a perfeitos estranhos e coisas do género.
Mas agora atenção, muita atenção! A questão é outra. Não tenho nada contra a prática da meditação (eu própria tenho tentado praticar e é sem dúvida uma bom antídoto contra stresses e obsessões), e muito menos algo tenho contra o abraçar árvores (melhor abraçá-las que cortá-las!). Também gosto de caminhar na natureza e se encontrar um gruta fantástica, entro e fico por lá umas horas. E quanto ao nascer do sol, acho maravilhoso! Pena que seja tão noctívaga e raramente me seja possível tal contemplação...
O que me faz uma comichão danada é o entendimento que algumas destas pessoas têm de si mesmas e do que elas realmente andam a fazer. Algumas, sim, digo Algumas, porque obviamente não são todas. Mas essas algumas até podem ser muitas. Mas mais uma vez, não estou a retratar ninguém em particular, mas sim uma amostra que tenho tido o prazer de 'estudar' nos últimos tempos. São os novos messias, que de messias pouco têm. Como aqueles activistas que vêm para a rua dizer que são activistas, quando o verdadeiro activista é aquele que jamais se propõe a dito rótulo.
Regra geral o grande propósito ou objectivo destas práticas é a Evolução. A dita Evolução enquanto seres humanos. E nessa Evolução estão implicados muitos valores e eles são: o amor, a amizade, a partilha, o respeito e a compaixão. O que é belo, sem dúvida. E os estados almejados são: a paz, a serenidade, unicidade e a pureza. Mais belo ainda.
Mas como mais tarde ou mais cedo todos entramos em contradição com as nossas próprias ideias e práticas, há 'aqui' muita gente que se contradiz a torto-e-a-direito, em palavras e acções. Eu entro em contradição muitas vezes, não faz mal admiti-lo. E é por isso que acho genial terem 'inventado' a expressão 'peço desculpa'. Porque nos dá a possibilidade de rectificar os nossos erros.
Mas posto isto, o que eu quero mesmo dizer é: se praticam meditação para serem melhores pessoas, mais brandas, mais serenas, mais compassivas e para melhor usufruírem do Presente, não faz muito sentido (pelo menos para mim) que troquem uma ida a um aniversário de um amigo para o qual foram convidados (nem que seja para dar um 'oi') para contemplar o passarinho verde que acabou de poisar no beiral da janela. É que do meu ponto de vista, o amigo vai ficar sentido e lá se vai o tal valor da compaixão e amizade por água-a-baixo. Já o passarinho verde nem repara que está a ser observado (e se repara, o mais provável é que fuja).
Também não faz muito sentido o gesto mal-educado de interromper uma conversa a meio porque se avistou uma árvore linda e milenar e ir a correr abraçar o tronco da dita-cuja, deixando a pessoa com quem se estava a falar de boca semi-aberta. A árvore não vai a lado nenhum, pode esperar, e a conversa também, mas lá se vai o tal valor da partilha por água-a-baixo, porque nem dá vontade de a continuar.
Quanto ao vegetarianismo, a coisa é mais controversa. E espero não ferir susceptibilidades. Eu também sou amante dos animais, e estou de acordo com a seguinte frase que alguém um dia disse: "Se todos os matadouros fossem feitos de vidro, ninguém comeria carne". Mas estranha-me que alguns dos vegetarianos que conheço tenham tanto apreço pela vida de um animal, mas quando alguém diz "Fulano tal morreu" a resposta que dão, em geral, é qualquer coisa como: "E então? A morte faz parte da vida, é um processo natural e transformativo. Vais ficar a pensar nisso?" Pior ainda é quando o Fulano tal que morreu é da nossa própria família: "Ah, não posso ir ao funeral, porque tenho de virar o rabo para a lua e agradecer pelo feijão que comi ao almoço, durante 5 horas" (estas situações são mais-ou-menos fictícias, ninguém morreu, não se preocupem, mas foram inspiradas em situações reais). E um pedido de desculpas nem sequer se põe em questão, porque o verdadeiro 'Shanti' não pede desculpas, porque não há nada a desculpar: "Temos de nos aceitar como somos, não podemos pedir desculpas".
Escusado será dizer que com estas atitudes, aquilo que me apetecia que acontecesse era que o tão adorado Dalai Lama se despencasse dos seus montes e viesse rir na 'vossa' cara.
E os 'free hugs'? Quanto aos 'free hugs' só me dá vontade de rir. Não pela ideia em si, que acho engraçada, apesar de já não ser original (mas não precisa de o ser para ser uma boa ideia). O problema não está no acto de abraçar uma pessoa estranha, sem pedir nada em troca (lindo, lindo...! Deviamos fazê-lo mais vezes!), mas sim na questão que muitas vezes se entrepõe: "E o teu irmão, que vive contigo, desde que nasceu, abraças?". E eu sei que muitos o fazem, que começam por abraçar os seus entes queridos, mas também sei que muitos não o fazem. Porque é muito mais 'cool' ir para a rua abraçar aquele gajo-além que por acaso até está a atrasado para apanhar o comboio para ir ter com a filha, acabando mesmo por perdê-lo porque foi abalroado por um grupo de 'Shantis', do que o irmão, a mãe ou quizás até a namorada: "Epa, isso fica para outra altura! Aliás, até estou um bocado farto dela, porque é anti-natura ficar mais de um ano numa relação."
Quanto ao alcool e drogas várias, não sinto necessidade de fazer nenhum apelo do género "Se beber não conduza!" ou "Mantenha-se firme, não vá comprar 'cavalo'!", pois acho desnecessário, já toda a gente sabe dos malefícios de todas essas coisas. Mas vão dizer que o Não-Sei-Das-Quantas, por ter apanhado uma piela em mil-nove-e-troca-o-passo, é bêbedo e desequilibrado? E depois vão a correr fazer uma sessão de ayahuasca, que é uma planta altamente alucinogénica? Eu não sou ninguém para falar dos benefícios, muito menos dos malefícios da planta, porque pouco sei sobre o assunto. Mas...em relação à piela que o gajo apanhou no Natal, porque era Natal...também deviam estar era caladinhos.
E para terminar esta reflexão, que sei que alguns vão gostar e outros odiar, dou-me a permissão de dizer o seguinte: A vida é bonita, o mundo tem coisas maravilhosas. Nós conseguimos ser fantásticos: temos a capacidade de criar, de construir, de amar, e todo um conjunto de 'iguarias'. Mas nem sempre é fácil, nem sempre a levamos da melhor forma, muitas vezes somos é levados por ela e aos trambolhões. E cabe a cada um de nós ter a força para continuar, da melhor forma, mas também cabe a cada um de nós estender a mão a quem precisa. Porque quando encontramos alguém que está infeliz, não é justo julgá-lo como um defeito ou fraqueza. Às vezes as razões pelas quais levam uma pessoa a sentir-se infeliz podem até não ser lá muito 'razoáveis' do nosso ponto de vista, mas a única verdade é que ela está infeliz. E por conseguinte devemos ajudá-la ou tentar ajudar (se pudermos e se quisermos, claro está, mas admitindo-o à partida). E o que eu tenho notado recentemente é que muitas destas pessoas que enchem a boca para falar de amor universal e de partilha, estão sempre mais preocupados com os seus próprios rituais e, como já entraram num processo de "felicidade-robótica" (muitas vezes porque nunca viveram nada verdadeiramente sofrido, ou seja, foi 'canja'..), não estão realmente disponíveis para ajudar, preferindo mandar umas frases do Dalai Lama ou do Raio-Que-O-Parta via facebook ("e agora faz o que tens a fazes, mas sozinho") em vez de se materializarem na vida dessa pessoa e darem aquele aconchego. A privação de afecto é, muitas vezes, o pior de todos os males.
Como uma amiga minha diz, e bem - "Sabes o que eu acho? Há gente que quer ser tão espiritual, que acabam é por estragar a espiritualidade!".
Aqui não se seguem regras (à parte do respeito pela ortografia e pelos retratados nos demais desvarios). Publico textos sem ordem em especial assim como tão pouco existe um formato de registo: tanto posso manter uma linguagem 'erudita' como saltar para a completa 'parvoíce'. Dou o meu melhor, e não o melhor que há, porque, de facto, não estou à espera do troféu do Blog-do-Ano, mas pretendo, sim, exclamar a minha individualidade porque a comunicação é o primeiro passo para a evolução.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
EcceHomo
Cecília Gimenez, uma mulher espanhola de 81 anos, fez-se
famosa e esteve debaixo dos holofotes da comunicação social durante várias
semanas, após ter arruinado, segundo uns, ou recriado, segundo outros, um
fresco do século XIX, que representava Jesus Cristo, “Eccehomo”, na igreja da Misericórdia,
em Borja, Zaragoza.
Muitos consideraram-no um atentado “terrorista”. Além de
arruinar um fresco original do século XIX, dificilmente recuperável, Cecília
atentou também à moralidade e religiosidade de muitos. Sendo ela apenas, e não
mais, uma paroquiana devota, sem qualquer formação na área de restauro, e não
tendo o aval colectivo dos demais paroquianos para o efeito, Cecília, ainda
assim, pegou nos seus pincéis e tintas e tentou recuperar o Cristo que há muito,
segundo ela, estava em decadência.
A intenção seria boa, não fosse o seu pouco ou nenhum
talento para a representação figurativa e tendo transformado o “Eccehomo” numa
pintura digna de uma menina de 5 anos. Feições distorcidas, volumetria perdida
e cores empasteladas, cobrindo totalmente a pintura original, a igreja da
Misericórdia perde para sempre uma das suas obras mais emblemáticas. Acto este
cujo autor original, Elias Garcia, não haveria de ter aprovado. Mas tendo agora
a dita igreja um estranho e deformado, mas não menos peculiar, Cristo, numa das
suas paredes mais visíveis, já destino de centenas de curiosos.
Mas se por um lado houve milhares de pessoas que ‘crucificaram’
o acto de Cecília, por outro lado, houve milhares que se regozijaram com ele. Afinal
de contas, deu que falar.
Em Espanha, e não só, muitos pedem que a obra se mantenha
como actualmente se encontra. De entre as muitas considerações, a opinião
generalizada é de que se tratou de uma atitude ingénua, produzindo uma obra ao
estilo ‘naif’, que em poucos instantes se tornou, igualmente, Pop Art. Canecas,
t-shirts, posters, e os mais variados objectos, surgiram com o novo Eccehomo. O
Facebook foi invadido por brincadeiras, piadas e dissertações sobre o
acontecimento. E o local que seria visitado, anteriormente, apenas por
paroquianos locais ou turistas ocasionais, enche-se agora de gente de todos os
lados, em busca do tal novo Eccehomo.
Matisse terá dito que a exactidão não é a ‘verdade’: “Temos
que ver a vida como se fossemos meninos”; Picasso proclamou “ Um quadro bom no
meio de quadros maus acaba por se transformar num mau quadro. E um quadro mau
no meio de quadros bons acaba por se tornar um bom quadro.” Já Andy Warhol, o
pai da Pop Art, dizia que nunca se poderia prever o tipo de reacções emocionais
que determinadas obras provocariam no público, e que o valor das mesmas estava
nessa não-antevisão do futuro e nas reacções emocionais, positivas ou
negativas, que surgiriam: “O importante é criar vida.”
Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não
têm necessidade, mas que ele, por qualquer razão, pensa ser uma boa ideia oferecer-lhes.
Cecília terá sido guiada por esta premissa. Talvez não seguindo um pensamento
artístico, mas um sentimento religioso de preservar a imagem do seu ídolo.
Se ela pode ser considerada artista ou não, está no livre julgamento
de cada um, se ela deve ser julgada por ter destruído uma obra já existente,
estará, igualmente, no livre julgamento de cada um. Se ela merece
reconhecimento e futuros ganhos pela obra produzida já é mais controverso, pois
ainda correremos o risco de ser invadidos por restauradores autodidactas em busca
dos seus 5 minutos de fama.
Contudo, rir faz bem. E ela, por certo, conseguiu,
intencionalmente ou não, o riso de muitos. E conseguiu também eternizar as já
eternizadas questões: “O que é Arte?” E “O que é a moral?”.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Salmão com puré de banana
Para quem ainda não fez o jantar ou para a posteridade... partilho o manjar que fiz hoje. :D
Salmão com puré de banana (para 2 pessoas)
- 2 Postas de Salmão
- 3 bananas
- 1 Cebola
- 2 Dentes de Alho
- Meia Curgete
- Azeite, Sal, pimenta e orégãos q.b.
Numa taça de ir ao forno, colocar as duas postas de Salmão,
envoltas em cebola e azeite. Temperar com sal, pimenta e orégãos. Levar ao
forno cerca de 20 minutos a 190 graus.
Entretanto, cortar as 3 bananas em pedaços pequenos para
dentro de uma panela com cebola e azeite. Temperar levemente com sal e pimenta.
Mexer até que as bananas se tornem em puré.
Noutra panela fazer o refogado de curgete, igualmente em
pedaços pequenos, com azeite e alho.
(Em todas as
situações o azeite está presente, mas não há necessidade de ser em grandes
quantidades. Uma colher de chá de azeite por cada cozinhado é suficiente)
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
O coxo
Chamava-se Sérgio e era coxo. Por ter perna acima perna abaixo ou por puro desmazelo, nunca o soube, dava passadas tropeças e amiúde lá caia uma das asas da sua mochila roxa-desbotada. A horizontalidade dos seus ombros estava para a verticalidade do seu corpo como uma balança de dois pratos está para uma balança com apenas um.
Mas este filhinho de Quasimodo tinha qualquer coisa de interessante. Os meus 8 anos de idade não o conseguiam racionalizar, mas estava apaixonada. E para validar este meu 'élan', a minha amiguinha de carteira também sentia o mesmo. E o tal do Sérgio, como boa criança todavia limpa de preconceitos e regras sociais, estava apaixonado pelas duas e não se coibia de o demonstrar, mandado-nos cartas forradas de corações e de algumas das poucas palavras que já sabia escrever.
É bom lembrar que as palavras que sabia eram realmente as únicas que importavam: "Eu gostu de vossês".
Não estava correcto, afinal de contas, mas o som era o mesmo. E soava para as duas como um coro dos mais puros anjos.
Além de coxo, não sabia escrever, o tonto, mas, ao que parece, quanto mais tonto era, mais bonito se tornava.
Um dia o Sérgio, o coxo, convidou-nos para o seu aniversário. Quando chegámos à sua casa, entre mãos dadas e risos nervosos, a pequena sala jorrava gente: pais, avós, primos e tios, vizinhos e amigos. Mas nada de crianças. Apenas nós, as miúdas, que éramos o seu presente mais precioso, pois os outros apenas teriam vindo numa de lambarice pelos comes-e-bebes:
- Porque o puto faz anos, mas nem sei bem quantos. Oh Sérgio, diz aqui ao tio, fazes quê? 10?
- Não, faço 8... - dizia envergonhado.
Os primos mais velhos quiseram por-nos a ver o Jurassic Park. Era idealmente medonho para nos aterrorizar. Enfiadas num só sofá, porque naquela altura ainda cabíamos assim juntas num espaço minúsculo, arregalávamos os olhos para logo os fechar, cheias de medo. E o Sérgio, olhava para nós, provavelmente pensando que não estaria esta a ser a melhor festa de aniversário que nos queria oferecer. É que o encanto do coxo era, afinal, esse mesmo: a ternura. E num tom miúdo e inseguro lá lhes disse para tirarem o filme.
- Ah, 'tou a ver que gostas mesmo das miúdas - disse um.
- Mas oh Sérgio, ter duas namoradas não 'tá certo, tu tens de escolher uma - disse o outro.
O bom do rapaz deixou cair os olhos no chão, e entrelaçava os dedos uns nos outros enquanto pensava numa resposta.
- Eu gosto das duas - disse então.
- Oh puto, não, tens de escolher uma! - insistiu.
- Está bem - disse por fim - Escolho a ela - apontando para a minha amiga.
E nesse momento deixei eu cair o meu coração no chão, desfeito em múltiplas gotas. Foi nesse momento que tive o meu coração partido, pela primeira vez. Teria o garoto feita uma escolha lógica por, afinal, haver uma preferência, ou apenas por se sentir pressionado pelos machos-alfa em seu redor, aquele dedinho apontado, ainda que não na minha direcção, tinha-me atingido como um torpedo.
E estava feita a formatação de dados: Gostar? Só de uma.
Mas este filhinho de Quasimodo tinha qualquer coisa de interessante. Os meus 8 anos de idade não o conseguiam racionalizar, mas estava apaixonada. E para validar este meu 'élan', a minha amiguinha de carteira também sentia o mesmo. E o tal do Sérgio, como boa criança todavia limpa de preconceitos e regras sociais, estava apaixonado pelas duas e não se coibia de o demonstrar, mandado-nos cartas forradas de corações e de algumas das poucas palavras que já sabia escrever.
É bom lembrar que as palavras que sabia eram realmente as únicas que importavam: "Eu gostu de vossês".
Não estava correcto, afinal de contas, mas o som era o mesmo. E soava para as duas como um coro dos mais puros anjos.
Além de coxo, não sabia escrever, o tonto, mas, ao que parece, quanto mais tonto era, mais bonito se tornava.
Um dia o Sérgio, o coxo, convidou-nos para o seu aniversário. Quando chegámos à sua casa, entre mãos dadas e risos nervosos, a pequena sala jorrava gente: pais, avós, primos e tios, vizinhos e amigos. Mas nada de crianças. Apenas nós, as miúdas, que éramos o seu presente mais precioso, pois os outros apenas teriam vindo numa de lambarice pelos comes-e-bebes:
- Porque o puto faz anos, mas nem sei bem quantos. Oh Sérgio, diz aqui ao tio, fazes quê? 10?
- Não, faço 8... - dizia envergonhado.
Os primos mais velhos quiseram por-nos a ver o Jurassic Park. Era idealmente medonho para nos aterrorizar. Enfiadas num só sofá, porque naquela altura ainda cabíamos assim juntas num espaço minúsculo, arregalávamos os olhos para logo os fechar, cheias de medo. E o Sérgio, olhava para nós, provavelmente pensando que não estaria esta a ser a melhor festa de aniversário que nos queria oferecer. É que o encanto do coxo era, afinal, esse mesmo: a ternura. E num tom miúdo e inseguro lá lhes disse para tirarem o filme.
- Ah, 'tou a ver que gostas mesmo das miúdas - disse um.
- Mas oh Sérgio, ter duas namoradas não 'tá certo, tu tens de escolher uma - disse o outro.
O bom do rapaz deixou cair os olhos no chão, e entrelaçava os dedos uns nos outros enquanto pensava numa resposta.
- Eu gosto das duas - disse então.
- Oh puto, não, tens de escolher uma! - insistiu.
- Está bem - disse por fim - Escolho a ela - apontando para a minha amiga.
E nesse momento deixei eu cair o meu coração no chão, desfeito em múltiplas gotas. Foi nesse momento que tive o meu coração partido, pela primeira vez. Teria o garoto feita uma escolha lógica por, afinal, haver uma preferência, ou apenas por se sentir pressionado pelos machos-alfa em seu redor, aquele dedinho apontado, ainda que não na minha direcção, tinha-me atingido como um torpedo.
E estava feita a formatação de dados: Gostar? Só de uma.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
A Rua
O condutor percorria, ligeiro, em cuidados com as lombas e senteças sinalizadas, a rua que eu sempre conhecera, sem mais novidades ou somas, igual ao que sempre fora.
- A minha casa é lá bem à frente ainda.
- De acordo, menina - palitou o taxista.
Uma viagem pelo corredor da minha infância e adolescência, calhau a calhau, arbusto por arbusto, e os metros se foram fazendo quilometros, e os minutos estanques.
Lá fora, no escuro dos candeeiros amarelos, eu me imaginava outra vez andando, com os grilos grilando e os prédios num ressono profundo, e pensei "Eu nunca realmente d'aqui saí".
De volta à mesma rua e ao encontro do que dali nunca saíra, mas que há muitos anos tão pouco presente realmente esteve, vi-me num círculo, cuja ponta é o ínicio da outra. E pela primeira vez, em muito tempo, a sensação de voltar a casa e ao ciclo redondo, me despertou enorme consolação. "Estes calhaus são meus, aqueles arbustos além também, todos os outros, de outras paragens, nunca o foram. A estes eu volto, o trilho dos outros já nem conheço, não deu tempo memorizá-los no coração."
- A minha casa é lá bem à frente ainda.
- De acordo, menina - palitou o taxista.
Uma viagem pelo corredor da minha infância e adolescência, calhau a calhau, arbusto por arbusto, e os metros se foram fazendo quilometros, e os minutos estanques.
Lá fora, no escuro dos candeeiros amarelos, eu me imaginava outra vez andando, com os grilos grilando e os prédios num ressono profundo, e pensei "Eu nunca realmente d'aqui saí".
De volta à mesma rua e ao encontro do que dali nunca saíra, mas que há muitos anos tão pouco presente realmente esteve, vi-me num círculo, cuja ponta é o ínicio da outra. E pela primeira vez, em muito tempo, a sensação de voltar a casa e ao ciclo redondo, me despertou enorme consolação. "Estes calhaus são meus, aqueles arbustos além também, todos os outros, de outras paragens, nunca o foram. A estes eu volto, o trilho dos outros já nem conheço, não deu tempo memorizá-los no coração."
terça-feira, 31 de julho de 2012
A rapariga chamava-se Alma. Tinham-lhe dado esse nome num a ver se ela alguma alma lhes trazia, à vida que já pouco surpeendia. A mãe, Maria Queixume, julgou ver esse brilho, durante os minutos que frouxamente a segurou, no meio das mantas, que apesar de velhas, o sangue não poupou.
Alma tinha, de facto, uma alma. Mas daquelas que vagueiam de um lado para lado nenhum. Silenciosa e taciturna, a miuda cresceu, mas nunca engrandeceu. E o pai de vinho se emborcou, pois a alma que ele queria que Alma fosse, não era mais que a sua que se perdera e nunca mais se avistou.
Alheia ao peso da sua alma, que pesaria, afinal, coisa nenhuma, ela seguia o seu caminho de ninguém, com os pés presos no chão e nunca mais além.
Um dia a mãe Maria Queixume lhe disse:
-Mas tu não fazes nada? Trouxemos-te ao mundo para nos surpreender e olha o que o teu pai acabou por fazer!". Alma encolheu os ombros e disse:
- Olha o céu, mãe. Aquelas estrelas brilham tanto, e estão sempre no mesmo lugar".
Alma tinha, de facto, uma alma. Mas daquelas que vagueiam de um lado para lado nenhum. Silenciosa e taciturna, a miuda cresceu, mas nunca engrandeceu. E o pai de vinho se emborcou, pois a alma que ele queria que Alma fosse, não era mais que a sua que se perdera e nunca mais se avistou.
Alheia ao peso da sua alma, que pesaria, afinal, coisa nenhuma, ela seguia o seu caminho de ninguém, com os pés presos no chão e nunca mais além.
Um dia a mãe Maria Queixume lhe disse:
-Mas tu não fazes nada? Trouxemos-te ao mundo para nos surpreender e olha o que o teu pai acabou por fazer!". Alma encolheu os ombros e disse:
- Olha o céu, mãe. Aquelas estrelas brilham tanto, e estão sempre no mesmo lugar".
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Quem espera sempre alcança, já dizia o ditado. Mas eu o desdigo, sem troça. Quem espera desespera, diria então o outro. E esse já cabe em mim com todo seu sentido. Na espera do esperado, desespera-se porque já sabemos o final que irá ser contado. Mas na teimosia do esperar, porque sabendo que se chegasse já deveria ter chegado, vamos reconhecendo que, afinal, o que se teima é não querer desteimar. No desteimar, perde-se a ilusão daquilo que poderia ser, mas nunca será. Nunca será, mas poderia ser.
Há este doce afago que aquece as ilusões, personificando-as no desejado. Pois são elas, afinal, que esperam por nós, todos os dias e todas as noites. Enrolam-se aninhadas no pescoço, amarram-nos os braços e tapam-nos os olhos, e deixamo-las estar, assim enganadas, enquanto pensam que quem nos engana são elas.
Há um rio que atravessa a casa. E as memórias vão nadando contrariando a corrente. Não querem ser levadas e buscam sustento. Estão todas desgrenhadas, já não lhes resta vaidade, apenas arrependimento. De não terem sido salvas a tempo.
Há este doce afago que aquece as ilusões, personificando-as no desejado. Pois são elas, afinal, que esperam por nós, todos os dias e todas as noites. Enrolam-se aninhadas no pescoço, amarram-nos os braços e tapam-nos os olhos, e deixamo-las estar, assim enganadas, enquanto pensam que quem nos engana são elas.
Há um rio que atravessa a casa. E as memórias vão nadando contrariando a corrente. Não querem ser levadas e buscam sustento. Estão todas desgrenhadas, já não lhes resta vaidade, apenas arrependimento. De não terem sido salvas a tempo.
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