domingo, 3 de maio de 2015

Aquilo que nos define

Aquilo que nos define pode ser muita coisa. Mas também pode ser todo um nada.
Varia consoante as luas. Varia consoante aquilo que pensamos sobre nós mesmos e como nos sentimos. Varia com os anos e com a experiência. Varia com as pessoas que cruzam a nossa vida e nos marcam. Também varia consoante quem nos olha e pensa que sabe aquilo que nos define.

Já por algumas vezes me questionaram porque trabalho, hoje em dia, num departamento administrativo, a ganhar pouco mais que o ordenado mínimo (o que já não é assim tão mau), a fazer tudo menos aquilo para o qual estudei.
Há algumas respostas possíveis para isso. Um delas é a mais trivial - 'Era o que havia. Foi o que consegui. Já ouviram falar em crise?'
Outra resposta pode ser - 'Aquilo que eu estudei não me define totalmente. Posso fazer outras coisas. E até gostar do que estou a fazer neste momento'.

Porque aquilo que nos define é o motor que nos faz avançar, seja para Este ou Oeste. Aquilo que nos define não é um conceito rotulado que nos espetam na testa, a partir do momento em que saímos duma Universidade: agora sou arquitecto; agora sou designer; agora sou médico; agora sou jornalista.
Até porque quando entramos numa Universidade, muitos são os sonhos em que acreditamos e que logo percebemos, afinal, serem apenas fantasias. Ainda somos muito novos, mal sabemos quem somos, muito menos saberemos para o quê fomos talhados.

Aquilo que nos define de melhor é a vontade de continuar. De usar todas as ferramentas que temos disponíveis para ir subjugando o tédio, a inércia e os sonhos por concretizar. Aquilo que nos define de melhor é não ficarmos parados, a receber mesada dos pais, à espera que o trabalho de sonho avance sobre nós, sem que façamos alguma coisa para avançar até ele.

Aquilo que nos define de pior é não avançar. E negar qualquer possibilidade que manche uma qualquer reputação a manter.
Aquilo que nos define de pior é insistir em esperar quimeras sem entender que essa quimera só é merecida se nos habituarmos a crescer. Se nos habituarmos à ideia, até, que crescer dói um bocado.

O meu curso define-me num determinado momento da minha vida. E as referências mais importantes ficaram. Aprendi muita coisa. Aprendi muita coisa que, inclusivamente, posso usar neste mesmo departamento. Por nada é linear. As formas não são estanques, as próprias funções também não, se soubermos integrar todos os mundos que nos interessam exactamente naquilo que estamos a fazer, e...expandir a bolha.

Aquilo que nos define nunca há-de ser um curso, mas aquilo que fazemos, e como fazemos, para (sobre)viver. E ir subjugando o tédio, a inércia e os sonhos por concretizar...


sábado, 31 de janeiro de 2015

Vão-se os dedos, ficam os anéis.



Costuma dizer-se o contrário, mas desta vez troco-lhe as voltas - São os dedos que vão, e não os anéis. A matéria sem alma permanece. Com alguns achaques e rachaduras, mas nada que um habilidoso não consiga tratar. E por cá fica grandes temporadas, até que um dia, talvez, seja atirada a um canto e devorada pela terra. Mas apenas se esta a aceitar - se for do tal do 'biodegradável' que todos adoramos. 
Mas nós gostamos ainda mais de coleccionar, de guardar, de manter e de adorar os nossos objetos. Principalmente quando esses objetos formam parte de uma árvore genealógica familiar qualquer.
Bom, não de uma qualquer, mas da nossa. E então cuidamos, nutrimos, mimamos, todos estes pertences. E nunca, jamais, os entregaríamos a essa draga devoradora.
Como se... com o deixar permanecer o pouco intruso (já faz parte da mobília! Literalmente...) nos transportasse a todas as pessoas que fizeram parte dele. Ou foi ele que fez parte delas...!? Mas tanto faz.
A cadeira, esta como outra qualquer, é, talvez, um dos símbolos mais petulantes e agressivos que existe. Porque é para uma cadeira que se olha quando falta alguém. É essa cadeira vazia que nos atormenta. 
A janela pode estar vaga, o alpendre também. Até a cama fica vazia. Mas a cadeira, junto à mesa, onde se reúnem os comensais faladores... essa... lembra-nos mais daquilo que gostaríamos esquecer - A Ausência.
Julgo que não há nada mais belo que uma cadeira. Uma cadeira bem talhada. Uma cadeira feita para embelezar, para servir e para durar. Mas julgo, também, que não há nada mais triste que uma cadeira. Quando ela se vê vazia por tempo eterno.
Podem sentar-se muitas outras pessoas nela. Mas ela nunca vai deixar de ser a cadeira que, durante muitos anos, representou a presença de alguém que não mais volta. Mas, no entanto, esse alguém nunca representaria a cadeira. A cadeira é apenas... uma cadeira.

Ao meu irmão, ao meu pai e à minha avó. Que deixaram cadeiras vazias, e que hão-de durar até que alguém lhes ateie fogo. 


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

To be or not to be 'Charlie', that is the question


I am not Charlie - because I don't have the willingness nor the guts (nor the talent) to make fun of everything.
But I am Charlie - because I also believe that being able to make fun of everything might be a brilliant way of spending life, taking away its seriousness.

I am not Charlie - because I don't feel like stirring a lethal angry 'wolf' that might hurt me or my family or my nation. I still value our lives more.
But I am Charlie - because I understand what they stood for. To live life with humor and to be free to say what we think without fearing death.

I am not Charlie - because I know some subjects have to be treated with more precaution. To mock people's feelings/beliefs might not take their lives away but hurt their hearts.
But I am Charlie - because I also believe that we should all be stronger and take what other people say, or make fun about, with lightness. We should learn always something good out of everything and we should value ourselves more...and keep going.

I am not Charlie - because I've been already hurt, I've already felt angry and I've already felt hatred against other people.
But I am Charlie - because, no matter what, I never killed anyone for what they thought or said about me or about my beliefs. They were free to go.

I am not Charlie - because I've also hurt other people for what they thought and said.
But I am Charlie - because no one killed me yet and I feel free to be or not to be whatever I want. Thank you.

I am not Charlie - because I know our western culture has loads of failures at the present moment, and it will always have; and I know this western culture made terrible things in the past.
But I am Charlie - because we are an old culture that learned with those terrible things and grew more compassionate, and because we are still trying, indefinitely in time, to improve our society.

I am not Charlie - because Art should not have in its concept total freedom only because its Art.
But I am Charlie - because if Art is not foisted to you and you only see it if you want, and if that Art only makes you think but does not take your life away... Art, is Art.  And as it's said: earth without art would be only 'eh'.

I am not Charlie - because no one is Charlie.
I am Charlie - because I like to believe we are free to be everything, without fear.

With the best wishes for Humanity.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Porque me apetece ser guru por um dia


Escrevo este texto a pedido de um amigo cujo nome não posso revelar - ligações com o governo, extorsão e fraude são alguns dos seus peculatos e razão pela qual não devo estar associada ao seu nome... - Just kidding!
Anyways, ele quer que eu fale do poder do Agora, que está muito na moda, mas na minha forma de ver as coisas.
E a minha forma de ver as coisas pode ser um bocado irritante. Mas é a minha forma de ver as coisas. Ponto. No entanto, se daqui a dez anos voltar a escrever sobre o mesmo tema, é provável que a minha opinião já tenha mudado. Apenas provável, não certamente.

Hoje em dia fala-se muito da importância de estarmos presentes no Agora. E até houve um tal de um Gustavo qualquer-coisa (figura-pública) que fez toda uma dissertação sobre o assunto dizendo algo como - "O presente é a coisa mais importante das nossas vidas, por isso mesmo se chama presente! É um presente, uma oferta, uma dádiva!" - Confesso que com esta quase verti uma lágrima, concordo com ele. Só estragou tudo quando disse que a nossa mente nos mentia e por isso se chamava 'mente'. Eu lembrei-me que em Inglês a palavra 'mente' é 'mind', assim que toda a sua razão foi pelo ralo abaixo e comecei a achá-lo irritante. Porque sendo assim apenas aos portugueses a mente...mente.

Mas, sim, eu acho que é muitíssimo importante estarmos presentes no Agora (e não me perguntem porque insisto em escrever 'Agora' com letra capital), porque é aquilo que existe no momento, neste momento. Mas não concordo que o passado ou que o futuro sejam conceitos muito distintos. Nos anos 50 Albert Einstein afirmou: "Para nós, físicos presunçosos, passado, presente e futuro são apenas ilusões". A fronteira entre o passado e o futuro é presente. E é uma fronteira móvel. A medida que o tempo vai avançando, o futuro se converte em presente e, em seguida, quase imediatamente, em passado. Os acontecimentos actuais juntam-se aos do passado e aos do futuro num ponto: todos eles são reais.

O que me apetece dizer é que não vale a pena viver no presente achando que o passado não faz parte dele. E não vale a pena viver o presente fingindo que o futuro não tem relevância. Num sentido mais prático, nós somos construções de todos os minutos e horas e dias passados, e se não tivermos em consciência que existe um futuro, nunca vamos ser responsáveis por nada.
Nem sempre é fácil, então, viver um presente 100% tranquilo devido a situações passadas que continuam a invadir o nosso pensar e agir - é normal. E também não vai ser viável termos no presente absolutamente tudo o que sempre quisemos ter porque vamos ter sempre a noção de futuro. E nessa noção de futuro, para nós seres criativos e em evolução, haverá sempre alguma coisa que falta - é normal.
O que é menos normal é não aceitar que a vida é mesmo isso.
Para quem acredita que a vida na terra é um conjunto de provações e que consoante a nossa conduta iremos dar ao paraíso ou ao inferno, isto fará todo o sentido - lidar com o passado da melhor forma no Agora e transformar o Agora como se já fosse futuro. Ser grato, basicamente.
Eu pessoalmente não tenho uma inclinação religiosa. Sou agnóstica - não acredito em nada, mas não nego qualquer possibilidade.
Mas uma coisa já tenho bastante clara - felicidade é repartida em momentos. A angústia também. Nada é eterno, tudo passa. Mas dentro dessa transformação cíclica, do bom para o mau e do mau para o bom, há uma linha condutora Espaço/Tempo que torna passado, presente e futuro em uma coisa só.
Os livros de História diziam-nos que tínhamos de conhecer o passado para melhor vivermos o presente e para construirmos um melhor futuro.  E para mim isto quer dizer que essas três palavrinhas se podem combinar numa só - Agora. E como continuamos a fazer História, vamos continuar a sofrer, a ser felizes, a amar, a viver.
Há quem reze o terço para amenizar o 'trauma' que esta sensação de continuidade nos dá, eu bebo um copo de vinho à noite.
Cheers!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Aquele estranho momento entre o nascimento e a morte


É a vida, certo?
E pode bem ser apenas um momento ou uma incrível aventura cheia deles. Mas é um estranho momento porque passamos parte dela a pensar no seu significado.
Não sei o que escoa para além dela. Essa é a pergunta de todos os que se perguntam. Aqueles que não se questionam, abençoados sejam. Em vida! - porque quanto ao resto, infelizmente, não me posso pronunciar.
Oxalá fora médium! E teria respostas na ponta da língua, por mais equivocadas que fossem - pelo menos far-vos-ia viver numa bela ilusão.
Mas não sou médium. A minha mediunidade tem um perímetro muito curto e sujeitos mais vivos que eu. Alcança sons que todos ou outros ouvem, cheiros que todos os outros presenciam, desejos mundanos como ir ao frigorífico às 3h da manhã e coisas equivalentes. As velas apagam com o vento, os quadros caiem quando os pregos dão de si (quando, de facto, dão de si), a televisão apaga quando eu a apago ou quando a meretriz da MEO decide. Quando acho que estou a ver um OVNI fico em êxtase, para logo entender que se trata de um foleiro foco de luz de um night-club qualquer. Quando acho que estou a ouvir vozes estranhas ou do além, percebo que há um rádio ligado ou uma bateria de um qualquer aparelho em sofrimento....E desligo-o, tudo voltando ao normal mundano.
E quando acho que ainda saber o Avé-Maria e o Pai-Nosso de cor me daria louros... qual quê? Vejo-me apenas a debitar umas frases a um tipo um tanto fascista sem qualquer retorno de causa. Nem um 'nok-nok, who-is-there?' acontece no meu quarto. Às escuras e sem medo, porque medo tenho eu de Louvá-Deus, que são feios que doí, mas do resto não. Mas agora que penso...o bicho tem um nome curioso. Será que ele é mesmo Deus? Olha, que fosse menos asqueroso, então.
E esta falta de mediunidade dá-me raiva. É que dá-me raiva, mesmo.
Qual é a parte do meu cérebro que não está a funcionar? Qual delas está apagadinha, adormecida?
É que eu continuo, insistentemente, a acreditar na vida após a morte. Continuo, insistentemente, a acreditar no Karma e Darma. E continuo insistentemente a acreditar que nada é por acaso e que tudo tem um resposta. Por vias mais direitas, outras mais tortas, mas - uma resposta. E ando sempre à caça delas.
Decidi, portanto, que tenho um QI de 30 valores. Mais coisa menos coisa, Não vejo palmo à frente do olhos, não sinto cheiro a rosas distantes, não vislumbro aparições agraciadas. Não ouço vozes - está tudo bem, minha querida. - Não, nada.
Ou então sou uma pobre alma destinada a sofrer as perdas sem ter sequer a ilusão de uma DisneyLand distante porque assim tem de ser. E isto é um martírio. Mas será apenas para os que pensam nisso.
Já longe vão os anos em que achava que pensar (isto é, formular questões) era super fixe. Porque os que não pensam e não formulam grandes questões são realmente uns grandes afortunados. Podem até destruir metade do planeta, mas a alegria de viver ninguém lhes tira.
E fica aqui agora a questão - o que é mais importante? Viver plenamente e sem pensar em grande coisa? Ou viver questionando e buscando respostas para o quase-não-respondível? - A primeira sei que não gera tanto cancro, e com a segunda vem de um tudo quanto é mau, mas pelo menos fazemos alguma coisa pelos nossos netos - Olhem, venha o Diabo e escolha.
Do que eu já entendi da vida é que há uma coisa chamada Marketing. E não é só aqui! Acho que até as almas de outros paralelos sucumbem a ela. Se não dizes a frase certa, o slogan apropriado, está tudo lixado. O Marketing existe aqui e lá!
Deus é um gajo cheio de manhas à espera de colorido perfeito, da bebedeira transcendental (ai que isso é pecado!) ou de uma qualquer geometria à Da Vinci que quase ninguém entende ou sequer questiona, para que te diga sequer um 'Oi, tudo bem, galera?'.
É como a tirania do Design Gráfico - se o logotipo está a 3 cm da margem e devia estar a 5 cm, o projecto é chumbado. Se não dizes a Deus a palavra certa, com a entoação certa e já agora com muita humildade na causa e quiçás de joelhos caídos em pregos, também és chumbado.
Cansei, vou dormir sem esperar ver anjo algum.




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Beleza


Neste texto vou falar do Belo. Não do belo rapaz ou do belo carro, mas sim do Belo. E como a Beleza pode ser encontrada em muitos lados, tenho de especificar - O Belo do qual falarei é o das palavras e da escrita.

Mas antes de mais tenho de admitir que há uns macaquinhos aqui a morderem-me a consciência. É que meio mundo anda preocupado e indignado (e com razão) com o que se passa na faixa de Gaza. E outro meio mundo preocupado e indignado com a crise, com novos bancos e outras aparições cómico-trágicas. E vou estar aqui eu a falar de .... escrita!?
Demasiado tarde. É que além de me apetecer muito, também não sei bem o que posso fazer em relação aos outros problemas. E sinto-me uma privilegiada por poder escrever este texto sem me sentir na eminência de explodir com um qualquer míssil cego, surdo e estúpido. E isto não foi uma piada. Portanto, vamos lá a isto.

Muitas pessoas não pensam, ou não dão importância, na Beleza que são as palavras, na Beleza de um discurso bem redigido, na Beleza de um pensamento ou emoção transformados em escrita. Há aqueles que não têm queda ou jeito, têm mais que fazer, mas são muitos mais aqueles que simplesmente se estão marimbando. A este último tipo eu costumo lançar um olhar quase de ódio. Sem misseis envolvidos, mas alguma irritação, sim!
Diz-se que a nossa língua é a nossa Pátria. Mas quem o disse, julgo eu, não se referia ao movimento 'correr-o-mais-que-podes-e-hastear-a-bandeira-para-que-a-terra-seja-tua'. Julgo eu que se referia antes ao um profundo sentimento não materialista de ser capaz de fazer falar o coração. E essa terra já é tua, sem serem necessárias bandeiras nem fronteiras, mas!, tens de cuidar dela.

Eu tenho um profundo desgosto em ser péssima a matemática. E a geometria. E a química. A sério, gostava mesmo de perceber e falar sobre essas coisas, mas não consigo. Mas posso falar de palavras. Adoro-as. E com elas vêm as vírgulas e os pontos de exclamação e interrogação, entre outros 'bonequinhos'. É extraordinário podermos fazer falar o coração. Acho que talvez tenha sido a mais brilhante criação da humanidade - a escrita.

Mas não se trata apenas de sermos capazes de exprimir pensamentos e escrevê-los. Tu não aprendes a falar e a escrever para simplesmente poderes comunicar. Eu vejo para além da utilidade prática, eu vejo Beleza. E quem não preserva essa Beleza é um bruto.
Na escola ensinam-nos que temos de aprender o alfabeto e como conjugar as letras para formarmos palavras e assim comunicarmos. Mas não acham que isto é demasiado redutor? Não é só para isso que aprendemos a conjugar letras, é também para criar Beleza.

Já me irritei mais com as novas linguagens cibernéticas ou de mensagens de telemóvel. Agora até lhes vejo alguma graça, mas desde que sejam respeitadas. Se a palavra 'mensagem', num chat ou coisa equivalente, se tornou 'msn', então preservem o tal do 'msn'. E uma nova pátria surge! Mas deixem esse planeta gravitar no eixo a que pertence. Não escrevam cartas aos namorado(as) com essas siglas manhosas.

Mas aquilo que realmente me deixa de cabelos em pé são as pessoas ditas instruídas e de berço de ouro (ou de prata, que já não é mau) assassinarem a lógica e a Beleza da escrita. Muriel Barbery diz no seu livro uma coisa bastante mórbida, mas deliciosa - "(...) Os favores da sorte têm um preço. Para quem beneficia das indulgências da vida, a obrigação da praxe na consideração da beleza não é negociável. A língua, essa riqueza do homem, e os seus usos, uma elaboração da comunidade social, são obras sagradas. Os ricos têm o dever de preservar o Belo. Senão, merecem morrer(...)"
Não, não acho que mereçam morrer. Mas a personagem que dizia estas pérolas tinha um sentido de humor bastante cortante. E com faca de talhante! Mas talvez mereçam um par de estalos.

Como disse, eu sou uma nódoa a matemática e, por conseguinte, não me meto em grandes aventuras com tudo o que envolva números. Quem não sabe escrever ou nunca percebeu que a qualquer tentativa de o fazer sai um vómito verde-tinto - devia ficar quieto. Mas como sei que é muito, muito importante continuar a publicar novos status no Facebook, então o conselho é: aprendam a escrever primeiro. Não tornem o Belo no Horrível.  

Claro está que depois há sempre uma certa liberdade à qual eu chamo de 'artística'. Há quem escreva de certa forma deliberadamente especial com um propósito. Transformam as letras em arte plástica. E isto também tem direito à vida! Mas da mesma forma que me chateiam aqueles quadros negros com a legenda 'sem título', não esperem que toda a gente vos entenda.

Para terminar - eu não sou escritora, eu apenas gosto muito disto. E não alcancei ainda a Beleza máxima. Talvez nunca consiga. Mas sonho com ela. Já é algo.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

"Redes sociais são os piores inimigos dos desempregados"


A partir desta frase que intitula um artigo de Isabel Jonet - Presidente da Federação Europeia dos Bancos Alimentares - sobre os malefícios das redes sociais, deu-me na gana divagar sobre a mesma.
Porque eu cá acho que o pior inimigo dos desempregados, embora seja uma teoria simplista, são os empregadores que não empregam esses mesmos desgraçados e não as redes sociais! Mas como é tão mais simples criar bodes expiatórios, não é?

Neste caso a própria Isabel Jonet, que até acredito já ter feito muita coisa positiva em prol dos outros, encontra-se numa posição favorável não só para ela mesma, mas para a criação de postos de trabalho. Mas penso que terá ficado pelo 'ela mesma'. E no entanto vem cuspir estas barbaridades.
É sabido que o Banco Alimentar tem parcerias explicitas com as empresas mais ricas do país. Se eu quiser ajudar, com um pacote de leite ou de arroz, tenho de comprar ao Belmiro. O Belmiro por sua vez é podre de rico!, mas os voluntários que angaria para irem para os supermercados abanar saquinhos de plástico no nosso nariz, não recebem nada.

Onde é que as redes sociais entram como vilãs? Eu tenho outra teoria - é que grande parte dos desempregados tem vários amigos que por acaso estão empregados, isto é, não têm tempo para ir para o café desfiar grandes conversas e, como consequência, o pessoal enfia-se na rede social virtual para poder estar em contacto com os amigos. E se isso é mau?, é. Mas pior seria ficar a falar com as paredes e perder totalmente esses contactos. Digo eu!
Mas por experiência própria sei também que quando há um grupo de amigos desempregados, estes raramente se deixam ficar a babar em cima do teclado. Pelo contrário, juntam-se mais vezes na 'vida real' porque estão todos na mesma situação de não-fazer-nenhum - Então, bora aí beber uma jola e ver o rio. - ou mesmo - bora aí entregar uns Cvs.
Mas se calhar são as pessoas que eu conheço. Se calhar tive e tenho essa sorte. Porque se calhar há mesmo quem resolva ficar a borboletear na rede social em vez de mexer a peida.
Ah! E outra coisa: também sei que muitos trabalhos, ou mesmo empregos, se encontram a partir de contactos nas redes sociais!

Mas diz Isabel Jonet que as pessoas devem é ocupar o seu tempo a procurar emprego ou a fazer voluntariado. Pois eu quero dizer a essa simpática senhora que procurar emprego neste país tornou-se quase tão obsoleto e, de certo, bem menos divertido, que estar umas horas no Facebook a dizer baboseiras.
E quanto ao voluntariado, confesso que concordo que devíamos todos fazer mais voluntariado. Mas depende do voluntariado, não é? Porque em muitas situações chegamos à conclusão que até podíamos estar a ser pagos pelo serviço que prestamos, mas não estamos. E quando descobrimos isso, é natural que mandemos a vaca pastar.
O Banco alimentar e seus inúmeros voluntários são um bom exemplo. A Jonet e o Belmiro, e mais uns quantos, devem achar que nós acreditamos mesmo que é tudo por 'amor à camisola', quando eles estão sentados em Bancos não forrados de caixinhas de leite, mas de muito dinheirinho. E que somos todos uns idiotas por não estarmos a abanar saquinhos nos supermercados.
Eu tenho a leve sensação (ironia!) que esta coisa de nos mandarem ir fazer voluntariado é o mesmo que nos atirarem areia para os olhos. Há muita coisa para fazer, sim senhora, mas também há a possibilidade de retirar um sustento desses afazeres, mas 'eles' gostam de pintar o voluntariado como algo tão nobre, mas tão nobre, que não pode envolver dinheiro (no caso do voluntário!, porque eles enchem os bolsos).

Gosto de ver as coisas deste prisma - eu faço voluntariado todos os dias - Eu cuido de dois cães, eu cozinho para mim, para a minha mãe, para o meu namorado, eu varro o chão da minha casa, dou boleia a amigos que precisem, ajudo velhinhas a carregar as compras, etc.. E chamo-lhe voluntariado porque não recebo dinheiro em troca, mas pelo menos este 'voluntariado' dá-me prazer e acrescenta alguma coisa a mim e a quem eu gosto. Ir limpar praias ou distribuir a sopinha dos pobres, sabendo que várias entidades podiam e DEVIAM encarregar-se do mesmo sem ter de explorar mão-de-obra-grátis, parece-me injusto, para não dizer ridículo.

Mas, sim, como trabalho a partir de casa (a cena tem um nome muito cool - sou freelancer), tenho o Facebook ligado a maior parte do tempo. E a Isabel pode dizer-me que eu sou uma anti-social que já não sabe viver sem a rede social. Mas eu respondo à Isabel - Fofinha, não me deram outra alternativa senão a de me tornar freelancer. E por acaso 90% dos trabalhos que arranjo são através da Internet. E estando em casa a maior parte do tempo, sim, vou vendo aqui e ali umas quantas publicações deste e daquele. Até a tua me veio cair às mãos! Olha lá, se não fosse a rede social, poderias transmitir a tua mensagem? O teu apelo? Ou whatever? É que também não te estou a ver a ir bater de porta em porta, estilo testemunha de Jeová, e espalhar a tua mensagem.

Portanto, será isto que me tornou ou nos tornou mais 'virtuais' e menos socais? Será que são as redes sociais que nos impossibilitam de termos um emprego? Estamos no Facebook porque estamos desempregados ou estamos desempregados porque estamos no Facebook? A galinha ou o ovo? Quem nasceu primeiro? E será que nos impede de termos amigos verdadeiros? E se fossem todos catar coquinhos? Assim em árvores bem altas para se esbardalharem lá de cima?

Isto faz-me lembrar aquele tipos que só sabem dizer mal das redes sociais mas que por acaso até têm uma conta. E que por acaso até vêm para o chat várias vezes meter conversa, ainda que seja para dizer - Isto é uma merda! 

Tenhamos sabedoria ou equilíbrio o suficiente para separar as águas ou o trigo do joio (qual Jesus Cristo), e tentemos todos ver as coisas más, mas também as coisas boas que advêm de qualquer tipo de serviço ou ferramenta à qual temos acesso. Se tudo for feito com peso e medida (hoje estou a escorrer em expressões idiomáticas) a rede social pode ser, sim, uma óptima tecnologia.

Isabelinha, vai fazer o jantar!, só para não te mandar para outro sitio. Até porque (e agora corro o risco de me queimar ainda mais) fiz um trabalho há três meses para um dos teus amigalhaços e até hoje não me pagaram.