quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

2016 em Revista

Eu sei que ainda não chegámos ao final do ano e que ainda podem vir a explodir umas quantas bombas e vir a morrer umas quantas celebridades nestes 23 dias, mas, como todos os anos, aqui fica a revisão do ano de 2016 (perspectiva pessoal, é claro, ainda que possa admitir ter tido uns quantos contactos extra-terrestres).
Janeiro: Morreu David Bowie. Tenho pena, claro que sim, oxalá vivêssemos todos até aos 100 anos, com ou sem talento musical. Mas tenho mais pena ainda pelos meus primos ‘cotas’ que viveram os seus mais tórridos romances ao som de Bowie. É que eles ficaram mesmo tristes! E eu cá ainda tenho o Eddie Vedder vivinho da silva. Falamos daqui a uns anos, então.
Mais, Leonardo DiCaprio finalmente ganhou o Óscar! Epa, vá lá, já não era sem tempo! Acho que, mesmo tendo ganho o Óscar por um papel em que a competência mais extrema era rastejar e grunhir, mereceu-o por todos os outros papéis interpretados. Até o do Titanic! Sim, o do Titanic! Ou acham que é fácil embater em Icebergs ao som de Celine Dion? É de cortar os pulsos, malta…
Fevereiro: Não me lembro bem. Acho que estive de ressaca vários dias pelo meu 30º aniversário. Mas ecoava lá ao fundo que Marcelo Rebelo de Sousa havia sido eleito Presidente da República e que a tomada de posse seria ao som de Anselmo Ralph. Marcelo, “partes a loiça toda, o nosso amor não acaba aqui.”
E fiquei também a saber que morreu Umberto Eco. Qual o meu espanto! É que pensava-o morto há muito tempo. Desculpem, mas é verdade. Quando li “O nome da Rosa”, lembro-me de o julgar do século XIX. E pronto, já não vou a tempo de lhe dizer que “O Pêndulo de Foucault” é absolutamente chato (tenho a certeza que, com esta, comprei mais uma briga com um primo qualquer).   
Março: Explosão no aeroporto de Bruxelas faz umas quantas dezenas de mortos. Como falar sobre isto sem ser capturada pela ISIS e sem ser degolada com uma faca de manteiga? Enfim, é melhor, então, não falar muito. Só os mando para o raio que os parta em 82 pedaços, sem direito a virgens. Traduzam lá isto! E entrego para Deus... 
Mas no meio disto tudo, o que se passa na Síria? 
Segundo, Coreia do Norte lança 4 mísseis de curto alcance no mar da sua costa leste, ignorando a ONU. Bom… brincando à batalha naval? Julgava que num jogo de tabuleiro ambos os competidores deviam aceitar ser participantes. 
Abril: Mais um: Prince. Também não era fã. Mas tão pouco importam os meus gostos musicais - lá se foi mais uma alma. Contudo, mais angustiante ainda foi ouvir as teorias de conspiração que juntam Bowie e Prince numa demanda pelo anonimato tardio e enriquecimento através da própria morte (como se lhes faltasse alguma coisa). Ah, sim, há muita gente que acha que estão ambos de mãos dadas nas ilhas Faroé a beber Mojitos (sim, eu sei que ilhas Faroé e Mojitos não combinam) e que na realidade não morreram. Irra, vão mas é passear o cão.
Maio: O Benfica sagra-se tri-campeão nacional. E acho que com esta o meu texto ganha outra vida, não é? Querem vocês lá saber do Bowie e dos atentados, desde que o Benfica seja campeão. E não, eu não sou do Sporting. E também não só da Académica. 
Junho: Atentando numa discoteca gay-friendly faz dezenas de mortos, em Orlando, e outro atentado em Istambul mata mais umas quantas. O mundo insiste em dar à luz vários idiotas que perpetuam o terror em nome de qualquer coisa que nem sequer é Deus. E no seguimento, levamos com o Brexit, com chá e scones a acompanhar como diplomacia. Por mim tudo bem, quero ver agora é quem vos vai lavar as ’toilets’ e que quem vos vai levar os ’scrambled eggs’ à boca. Hey...com isto não quero dizer que não haja outras funções a serem desempenhadas por emigrantes na UK…. chill. 
Mas no meio disto tudo, o que se passa na Síria? 
Julho: Um camião embate propositadamente na multidão presente na celebração do Dia da Bastilha, em Nice, fazendo pelo menos 84 mortos e mais de uma centena de feridos. Vale a pena ainda dizer que a Seleção Nacional foi campeã Europeia? Acho que não. E a Síria? 
Agosto: Incêndios e mais incêndios. Ou são interesses económicos ou são maluquinhos da pinha que decidem lançar fogo às nossas florestas. Interesses económicos, interesses por mediatismo, ou puro e ingénuo interesse em observar o fogo a flagrar. Qualquer que seja o interesse, façam da vossa lareira o vosso colchão, se faz favor. 
Setembro: O ex-presidente Lula foi denunciado pelo Ministério Público Federal sob os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Lava Jato. Eu não percebo muito de política, mas tenho em mim, pelos coisas que li e vi, que qualquer partidário do PT, em tempos muito idos e quando eram bastante jovens, até que tinha lá os seus ideias revolucionários e os seus ímpetos socialistas. Porquê que, passados uns anos, todos este tipos se deixam levar por esquemas de corrupção? É aborrecimento? É falta de sexo? (pardon my french)… Tomara não envelhecer nunca!
Novembro: Finalmente chegou o mês de Trump. Depois de tanto marketing à volta dele próprio, das suas capacidades e inúmeras virtudes, embora fascista, xenófobo e sexista, conseguiu eleger-se. Mais o mais preocupante, parece-me agora a mim, nem é o próprio Trump, mas a multitúde de pessoas que o segue. Porque Trump é só um. Quem votou nele são milhares. E, parece-me a mim que, apesar de não ser flor que se cheire, todos os seus discursos radicais eram puro marketing, porque, esperto é ele, sabia o que seu povo idiota queria ouvir. E de repente já mudou de máscara, de repente já faz um bocadinho mais sentido (mas só um bocadinho) e quem o elegeu, ignorantes como são, lá o continuarão a seguir, independentemente do que diga. Mas pensando bem, e os outros? Democracia é uma falácia, comunismo um martírio, anarquia uma desordem, e qualquer homem ou mulher no poder... um enlace com a corrupção. Em quem votaria eu? Eu cá, se pudesse assim ser, votava no Fidel Castro. 
Ah… também morreu? Pronto, voto em branco. 

domingo, 3 de maio de 2015

Aquilo que nos define

Aquilo que nos define pode ser muita coisa. Mas também pode ser todo um nada.
Varia consoante as luas. Varia consoante aquilo que pensamos sobre nós mesmos e como nos sentimos. Varia com os anos e com a experiência. Varia com as pessoas que cruzam a nossa vida e nos marcam. Também varia consoante quem nos olha e pensa que sabe aquilo que nos define.

Já por algumas vezes me questionaram porque trabalho, hoje em dia, num departamento administrativo, a ganhar pouco mais que o ordenado mínimo (o que já não é assim tão mau), a fazer tudo menos aquilo para o qual estudei.
Há algumas respostas possíveis para isso. Um delas é a mais trivial - 'Era o que havia. Foi o que consegui. Já ouviram falar em crise?'
Outra resposta pode ser - 'Aquilo que eu estudei não me define totalmente. Posso fazer outras coisas. E até gostar do que estou a fazer neste momento'.

Porque aquilo que nos define é o motor que nos faz avançar, seja para Este ou Oeste. Aquilo que nos define não é um conceito rotulado que nos espetam na testa, a partir do momento em que saímos duma Universidade: agora sou arquitecto; agora sou designer; agora sou médico; agora sou jornalista.
Até porque quando entramos numa Universidade, muitos são os sonhos em que acreditamos e que logo percebemos, afinal, serem apenas fantasias. Ainda somos muito novos, mal sabemos quem somos, muito menos saberemos para o quê fomos talhados.

Aquilo que nos define de melhor é a vontade de continuar. De usar todas as ferramentas que temos disponíveis para ir subjugando o tédio, a inércia e os sonhos por concretizar. Aquilo que nos define de melhor é não ficarmos parados, a receber mesada dos pais, à espera que o trabalho de sonho avance sobre nós, sem que façamos alguma coisa para avançar até ele.

Aquilo que nos define de pior é não avançar. E negar qualquer possibilidade que manche uma qualquer reputação a manter.
Aquilo que nos define de pior é insistir em esperar quimeras sem entender que essa quimera só é merecida se nos habituarmos a crescer. Se nos habituarmos à ideia, até, que crescer dói um bocado.

O meu curso define-me num determinado momento da minha vida. E as referências mais importantes ficaram. Aprendi muita coisa. Aprendi muita coisa que, inclusivamente, posso usar neste mesmo departamento. Por nada é linear. As formas não são estanques, as próprias funções também não, se soubermos integrar todos os mundos que nos interessam exactamente naquilo que estamos a fazer, e...expandir a bolha.

Aquilo que nos define nunca há-de ser um curso, mas aquilo que fazemos, e como fazemos, para (sobre)viver. E ir subjugando o tédio, a inércia e os sonhos por concretizar...


sábado, 31 de janeiro de 2015

Vão-se os dedos, ficam os anéis.



Costuma dizer-se o contrário, mas desta vez troco-lhe as voltas - São os dedos que vão, e não os anéis. A matéria sem alma permanece. Com alguns achaques e rachaduras, mas nada que um habilidoso não consiga tratar. E por cá fica grandes temporadas, até que um dia, talvez, seja atirada a um canto e devorada pela terra. Mas apenas se esta a aceitar - se for do tal do 'biodegradável' que todos adoramos. 
Mas nós gostamos ainda mais de coleccionar, de guardar, de manter e de adorar os nossos objetos. Principalmente quando esses objetos formam parte de uma árvore genealógica familiar qualquer.
Bom, não de uma qualquer, mas da nossa. E então cuidamos, nutrimos, mimamos, todos estes pertences. E nunca, jamais, os entregaríamos a essa draga devoradora.
Como se... com o deixar permanecer o pouco intruso (já faz parte da mobília! Literalmente...) nos transportasse a todas as pessoas que fizeram parte dele. Ou foi ele que fez parte delas...!? Mas tanto faz.
A cadeira, esta como outra qualquer, é, talvez, um dos símbolos mais petulantes e agressivos que existe. Porque é para uma cadeira que se olha quando falta alguém. É essa cadeira vazia que nos atormenta. 
A janela pode estar vaga, o alpendre também. Até a cama fica vazia. Mas a cadeira, junto à mesa, onde se reúnem os comensais faladores... essa... lembra-nos mais daquilo que gostaríamos esquecer - A Ausência.
Julgo que não há nada mais belo que uma cadeira. Uma cadeira bem talhada. Uma cadeira feita para embelezar, para servir e para durar. Mas julgo, também, que não há nada mais triste que uma cadeira. Quando ela se vê vazia por tempo eterno.
Podem sentar-se muitas outras pessoas nela. Mas ela nunca vai deixar de ser a cadeira que, durante muitos anos, representou a presença de alguém que não mais volta. Mas, no entanto, esse alguém nunca representaria a cadeira. A cadeira é apenas... uma cadeira.

Ao meu irmão, ao meu pai e à minha avó. Que deixaram cadeiras vazias, e que hão-de durar até que alguém lhes ateie fogo. 


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

To be or not to be 'Charlie', that is the question


I am not Charlie - because I don't have the willingness nor the guts (nor the talent) to make fun of everything.
But I am Charlie - because I also believe that being able to make fun of everything might be a brilliant way of spending life, taking away its seriousness.

I am not Charlie - because I don't feel like stirring a lethal angry 'wolf' that might hurt me or my family or my nation. I still value our lives more.
But I am Charlie - because I understand what they stood for. To live life with humor and to be free to say what we think without fearing death.

I am not Charlie - because I know some subjects have to be treated with more precaution. To mock people's feelings/beliefs might not take their lives away but hurt their hearts.
But I am Charlie - because I also believe that we should all be stronger and take what other people say, or make fun about, with lightness. We should learn always something good out of everything and we should value ourselves more...and keep going.

I am not Charlie - because I've been already hurt, I've already felt angry and I've already felt hatred against other people.
But I am Charlie - because, no matter what, I never killed anyone for what they thought or said about me or about my beliefs. They were free to go.

I am not Charlie - because I've also hurt other people for what they thought and said.
But I am Charlie - because no one killed me yet and I feel free to be or not to be whatever I want. Thank you.

I am not Charlie - because I know our western culture has loads of failures at the present moment, and it will always have; and I know this western culture made terrible things in the past.
But I am Charlie - because we are an old culture that learned with those terrible things and grew more compassionate, and because we are still trying, indefinitely in time, to improve our society.

I am not Charlie - because Art should not have in its concept total freedom only because its Art.
But I am Charlie - because if Art is not foisted to you and you only see it if you want, and if that Art only makes you think but does not take your life away... Art, is Art.  And as it's said: earth without art would be only 'eh'.

I am not Charlie - because no one is Charlie.
I am Charlie - because I like to believe we are free to be everything, without fear.

With the best wishes for Humanity.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Porque me apetece ser guru por um dia


Escrevo este texto a pedido de um amigo cujo nome não posso revelar - ligações com o governo, extorsão e fraude são alguns dos seus peculatos e razão pela qual não devo estar associada ao seu nome... - Just kidding!
Anyways, ele quer que eu fale do poder do Agora, que está muito na moda, mas na minha forma de ver as coisas.
E a minha forma de ver as coisas pode ser um bocado irritante. Mas é a minha forma de ver as coisas. Ponto. No entanto, se daqui a dez anos voltar a escrever sobre o mesmo tema, é provável que a minha opinião já tenha mudado. Apenas provável, não certamente.

Hoje em dia fala-se muito da importância de estarmos presentes no Agora. E até houve um tal de um Gustavo qualquer-coisa (figura-pública) que fez toda uma dissertação sobre o assunto dizendo algo como - "O presente é a coisa mais importante das nossas vidas, por isso mesmo se chama presente! É um presente, uma oferta, uma dádiva!" - Confesso que com esta quase verti uma lágrima, concordo com ele. Só estragou tudo quando disse que a nossa mente nos mentia e por isso se chamava 'mente'. Eu lembrei-me que em Inglês a palavra 'mente' é 'mind', assim que toda a sua razão foi pelo ralo abaixo e comecei a achá-lo irritante. Porque sendo assim apenas aos portugueses a mente...mente.

Mas, sim, eu acho que é muitíssimo importante estarmos presentes no Agora (e não me perguntem porque insisto em escrever 'Agora' com letra capital), porque é aquilo que existe no momento, neste momento. Mas não concordo que o passado ou que o futuro sejam conceitos muito distintos. Nos anos 50 Albert Einstein afirmou: "Para nós, físicos presunçosos, passado, presente e futuro são apenas ilusões". A fronteira entre o passado e o futuro é presente. E é uma fronteira móvel. A medida que o tempo vai avançando, o futuro se converte em presente e, em seguida, quase imediatamente, em passado. Os acontecimentos actuais juntam-se aos do passado e aos do futuro num ponto: todos eles são reais.

O que me apetece dizer é que não vale a pena viver no presente achando que o passado não faz parte dele. E não vale a pena viver o presente fingindo que o futuro não tem relevância. Num sentido mais prático, nós somos construções de todos os minutos e horas e dias passados, e se não tivermos em consciência que existe um futuro, nunca vamos ser responsáveis por nada.
Nem sempre é fácil, então, viver um presente 100% tranquilo devido a situações passadas que continuam a invadir o nosso pensar e agir - é normal. E também não vai ser viável termos no presente absolutamente tudo o que sempre quisemos ter porque vamos ter sempre a noção de futuro. E nessa noção de futuro, para nós seres criativos e em evolução, haverá sempre alguma coisa que falta - é normal.
O que é menos normal é não aceitar que a vida é mesmo isso.
Para quem acredita que a vida na terra é um conjunto de provações e que consoante a nossa conduta iremos dar ao paraíso ou ao inferno, isto fará todo o sentido - lidar com o passado da melhor forma no Agora e transformar o Agora como se já fosse futuro. Ser grato, basicamente.
Eu pessoalmente não tenho uma inclinação religiosa. Sou agnóstica - não acredito em nada, mas não nego qualquer possibilidade.
Mas uma coisa já tenho bastante clara - felicidade é repartida em momentos. A angústia também. Nada é eterno, tudo passa. Mas dentro dessa transformação cíclica, do bom para o mau e do mau para o bom, há uma linha condutora Espaço/Tempo que torna passado, presente e futuro em uma coisa só.
Os livros de História diziam-nos que tínhamos de conhecer o passado para melhor vivermos o presente e para construirmos um melhor futuro.  E para mim isto quer dizer que essas três palavrinhas se podem combinar numa só - Agora. E como continuamos a fazer História, vamos continuar a sofrer, a ser felizes, a amar, a viver.
Há quem reze o terço para amenizar o 'trauma' que esta sensação de continuidade nos dá, eu bebo um copo de vinho à noite.
Cheers!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Aquele estranho momento entre o nascimento e a morte


É a vida, certo?
E pode bem ser apenas um momento ou uma incrível aventura cheia deles. Mas é um estranho momento porque passamos parte dela a pensar no seu significado.
Não sei o que escoa para além dela. Essa é a pergunta de todos os que se perguntam. Aqueles que não se questionam, abençoados sejam. Em vida! - porque quanto ao resto, infelizmente, não me posso pronunciar.
Oxalá fora médium! E teria respostas na ponta da língua, por mais equivocadas que fossem - pelo menos far-vos-ia viver numa bela ilusão.
Mas não sou médium. A minha mediunidade tem um perímetro muito curto e sujeitos mais vivos que eu. Alcança sons que todos ou outros ouvem, cheiros que todos os outros presenciam, desejos mundanos como ir ao frigorífico às 3h da manhã e coisas equivalentes. As velas apagam com o vento, os quadros caiem quando os pregos dão de si (quando, de facto, dão de si), a televisão apaga quando eu a apago ou quando a meretriz da MEO decide. Quando acho que estou a ver um OVNI fico em êxtase, para logo entender que se trata de um foleiro foco de luz de um night-club qualquer. Quando acho que estou a ouvir vozes estranhas ou do além, percebo que há um rádio ligado ou uma bateria de um qualquer aparelho em sofrimento....E desligo-o, tudo voltando ao normal mundano.
E quando acho que ainda saber o Avé-Maria e o Pai-Nosso de cor me daria louros... qual quê? Vejo-me apenas a debitar umas frases a um tipo um tanto fascista sem qualquer retorno de causa. Nem um 'nok-nok, who-is-there?' acontece no meu quarto. Às escuras e sem medo, porque medo tenho eu de Louvá-Deus, que são feios que doí, mas do resto não. Mas agora que penso...o bicho tem um nome curioso. Será que ele é mesmo Deus? Olha, que fosse menos asqueroso, então.
E esta falta de mediunidade dá-me raiva. É que dá-me raiva, mesmo.
Qual é a parte do meu cérebro que não está a funcionar? Qual delas está apagadinha, adormecida?
É que eu continuo, insistentemente, a acreditar na vida após a morte. Continuo, insistentemente, a acreditar no Karma e Darma. E continuo insistentemente a acreditar que nada é por acaso e que tudo tem um resposta. Por vias mais direitas, outras mais tortas, mas - uma resposta. E ando sempre à caça delas.
Decidi, portanto, que tenho um QI de 30 valores. Mais coisa menos coisa, Não vejo palmo à frente do olhos, não sinto cheiro a rosas distantes, não vislumbro aparições agraciadas. Não ouço vozes - está tudo bem, minha querida. - Não, nada.
Ou então sou uma pobre alma destinada a sofrer as perdas sem ter sequer a ilusão de uma DisneyLand distante porque assim tem de ser. E isto é um martírio. Mas será apenas para os que pensam nisso.
Já longe vão os anos em que achava que pensar (isto é, formular questões) era super fixe. Porque os que não pensam e não formulam grandes questões são realmente uns grandes afortunados. Podem até destruir metade do planeta, mas a alegria de viver ninguém lhes tira.
E fica aqui agora a questão - o que é mais importante? Viver plenamente e sem pensar em grande coisa? Ou viver questionando e buscando respostas para o quase-não-respondível? - A primeira sei que não gera tanto cancro, e com a segunda vem de um tudo quanto é mau, mas pelo menos fazemos alguma coisa pelos nossos netos - Olhem, venha o Diabo e escolha.
Do que eu já entendi da vida é que há uma coisa chamada Marketing. E não é só aqui! Acho que até as almas de outros paralelos sucumbem a ela. Se não dizes a frase certa, o slogan apropriado, está tudo lixado. O Marketing existe aqui e lá!
Deus é um gajo cheio de manhas à espera de colorido perfeito, da bebedeira transcendental (ai que isso é pecado!) ou de uma qualquer geometria à Da Vinci que quase ninguém entende ou sequer questiona, para que te diga sequer um 'Oi, tudo bem, galera?'.
É como a tirania do Design Gráfico - se o logotipo está a 3 cm da margem e devia estar a 5 cm, o projecto é chumbado. Se não dizes a Deus a palavra certa, com a entoação certa e já agora com muita humildade na causa e quiçás de joelhos caídos em pregos, também és chumbado.
Cansei, vou dormir sem esperar ver anjo algum.




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Beleza


Neste texto vou falar do Belo. Não do belo rapaz ou do belo carro, mas sim do Belo. E como a Beleza pode ser encontrada em muitos lados, tenho de especificar - O Belo do qual falarei é o das palavras e da escrita.

Mas antes de mais tenho de admitir que há uns macaquinhos aqui a morderem-me a consciência. É que meio mundo anda preocupado e indignado (e com razão) com o que se passa na faixa de Gaza. E outro meio mundo preocupado e indignado com a crise, com novos bancos e outras aparições cómico-trágicas. E vou estar aqui eu a falar de .... escrita!?
Demasiado tarde. É que além de me apetecer muito, também não sei bem o que posso fazer em relação aos outros problemas. E sinto-me uma privilegiada por poder escrever este texto sem me sentir na eminência de explodir com um qualquer míssil cego, surdo e estúpido. E isto não foi uma piada. Portanto, vamos lá a isto.

Muitas pessoas não pensam, ou não dão importância, na Beleza que são as palavras, na Beleza de um discurso bem redigido, na Beleza de um pensamento ou emoção transformados em escrita. Há aqueles que não têm queda ou jeito, têm mais que fazer, mas são muitos mais aqueles que simplesmente se estão marimbando. A este último tipo eu costumo lançar um olhar quase de ódio. Sem misseis envolvidos, mas alguma irritação, sim!
Diz-se que a nossa língua é a nossa Pátria. Mas quem o disse, julgo eu, não se referia ao movimento 'correr-o-mais-que-podes-e-hastear-a-bandeira-para-que-a-terra-seja-tua'. Julgo eu que se referia antes ao um profundo sentimento não materialista de ser capaz de fazer falar o coração. E essa terra já é tua, sem serem necessárias bandeiras nem fronteiras, mas!, tens de cuidar dela.

Eu tenho um profundo desgosto em ser péssima a matemática. E a geometria. E a química. A sério, gostava mesmo de perceber e falar sobre essas coisas, mas não consigo. Mas posso falar de palavras. Adoro-as. E com elas vêm as vírgulas e os pontos de exclamação e interrogação, entre outros 'bonequinhos'. É extraordinário podermos fazer falar o coração. Acho que talvez tenha sido a mais brilhante criação da humanidade - a escrita.

Mas não se trata apenas de sermos capazes de exprimir pensamentos e escrevê-los. Tu não aprendes a falar e a escrever para simplesmente poderes comunicar. Eu vejo para além da utilidade prática, eu vejo Beleza. E quem não preserva essa Beleza é um bruto.
Na escola ensinam-nos que temos de aprender o alfabeto e como conjugar as letras para formarmos palavras e assim comunicarmos. Mas não acham que isto é demasiado redutor? Não é só para isso que aprendemos a conjugar letras, é também para criar Beleza.

Já me irritei mais com as novas linguagens cibernéticas ou de mensagens de telemóvel. Agora até lhes vejo alguma graça, mas desde que sejam respeitadas. Se a palavra 'mensagem', num chat ou coisa equivalente, se tornou 'msn', então preservem o tal do 'msn'. E uma nova pátria surge! Mas deixem esse planeta gravitar no eixo a que pertence. Não escrevam cartas aos namorado(as) com essas siglas manhosas.

Mas aquilo que realmente me deixa de cabelos em pé são as pessoas ditas instruídas e de berço de ouro (ou de prata, que já não é mau) assassinarem a lógica e a Beleza da escrita. Muriel Barbery diz no seu livro uma coisa bastante mórbida, mas deliciosa - "(...) Os favores da sorte têm um preço. Para quem beneficia das indulgências da vida, a obrigação da praxe na consideração da beleza não é negociável. A língua, essa riqueza do homem, e os seus usos, uma elaboração da comunidade social, são obras sagradas. Os ricos têm o dever de preservar o Belo. Senão, merecem morrer(...)"
Não, não acho que mereçam morrer. Mas a personagem que dizia estas pérolas tinha um sentido de humor bastante cortante. E com faca de talhante! Mas talvez mereçam um par de estalos.

Como disse, eu sou uma nódoa a matemática e, por conseguinte, não me meto em grandes aventuras com tudo o que envolva números. Quem não sabe escrever ou nunca percebeu que a qualquer tentativa de o fazer sai um vómito verde-tinto - devia ficar quieto. Mas como sei que é muito, muito importante continuar a publicar novos status no Facebook, então o conselho é: aprendam a escrever primeiro. Não tornem o Belo no Horrível.  

Claro está que depois há sempre uma certa liberdade à qual eu chamo de 'artística'. Há quem escreva de certa forma deliberadamente especial com um propósito. Transformam as letras em arte plástica. E isto também tem direito à vida! Mas da mesma forma que me chateiam aqueles quadros negros com a legenda 'sem título', não esperem que toda a gente vos entenda.

Para terminar - eu não sou escritora, eu apenas gosto muito disto. E não alcancei ainda a Beleza máxima. Talvez nunca consiga. Mas sonho com ela. Já é algo.